Embrapa faz primeiro estudo no Brasil sobre carne de peixe produzida em laboratório
Levantamento inédito busca entender a percepção do consumidor brasileiro sobre o pescado cultivado a partir de células e pode orientar futuros investimentos em proteínas alternativas
A Embrapa Pesca e Aquicultura, sediada em Palmas (TO), está realizando uma pesquisa inédita no Brasil para avaliar o grau de aceitação do consumidor em relação à carne de peixe cultivada em laboratório. O levantamento é o primeiro do gênero no país e busca entender como o público brasileiro percebe esse tipo de alimento, considerado uma tecnologia emergente no mercado de proteínas alternativas.
O estudo pretende identificar o interesse do consumidor em experimentar o produto, a intenção de compra e os fatores que podem favorecer ou dificultar a entrada desse tipo de proteína no mercado nacional.
Segundo Diego Neves de Sousa, supervisor do Setor de Prospecção e Avaliação de Tecnologias da Embrapa Pesca e Aquicultura, os estudos sobre agricultura celular ainda são incipientes no Brasil, especialmente quando se trata do setor de pescados.
De acordo com ele, a pesquisa é importante porque pode revelar as preferências do consumidor e indicar se a carne de peixe cultivada a partir de células tem potencial de aceitação comercial no país.
Tecnologia ainda é pouco conhecida no Brasil
A chamada carne de peixe cultivada em laboratório é produzida a partir de uma pequena amostra de células retirada de peixes. A partir desse material, as células são cultivadas em ambiente controlado para crescer e formar a carne, sem a necessidade das etapas tradicionais de criação e abate dos animais.
Segundo Eduardo Varela, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura e responsável pelo estudo, essa tecnologia já vem sendo desenvolvida em outros países e pode representar uma nova forma de produção de proteínas nos próximos anos.
No Brasil, porém, o tema ainda é pouco conhecido pelo consumidor e carece de informações mais concretas sobre a percepção do público. É justamente essa lacuna que a pesquisa da Embrapa pretende começar a preencher.
Pesquisa quer entender barreiras e motivações de consumo
Além de medir a aceitação inicial do produto, o levantamento busca identificar quais fatores influenciam a disposição do consumidor em experimentar esse tipo de alimento.
A pesquisa também pretende mapear possíveis barreiras, como desconfiança em relação ao processo de produção, resistência a novas tecnologias alimentares ou dúvidas sobre segurança, além de motivações que podem estimular o consumo, como sustentabilidade, inovação e redução de impactos ambientais.
Segundo os pesquisadores, compreender esse comportamento é essencial para avaliar o potencial de mercado da tecnologia e para orientar futuras estratégias de comunicação e posicionamento do setor.
Proteína alternativa pode ganhar espaço no mercado
Para a Embrapa, a carne de peixe cultivada a partir de células faz parte de um movimento global de expansão das chamadas proteínas alternativas, segmento que vem ganhando relevância em diferentes países.
A tecnologia pode contribuir para uma produção de alimentos mais limpa, com menor pressão sobre os estoques naturais de pescado e redução de impactos ambientais associados à atividade convencional.
Nesse contexto, o avanço da agricultura celular pode abrir novas possibilidades para o abastecimento de proteínas, especialmente em um cenário de crescente demanda por alimentos e maior preocupação com sustentabilidade.
Segundo Varela, o mercado de proteínas alternativas já é uma realidade e uma tendência, mas ainda há pouca informação no Brasil sobre como o consumidor reage a esses novos produtos.
Resultados podem orientar investimentos e políticas públicas
Os dados coletados pela pesquisa devem contribuir para estudos sobre a aceitação de novas tecnologias alimentares e podem servir de base para políticas públicas, ações de comunicação e decisões futuras de pesquisa e desenvolvimento dentro da própria Embrapa.
De acordo com os pesquisadores, os investimentos da agenda de PD da instituição são orientados pelas demandas do mercado e do consumo. Por isso, entender os sinais emitidos pelo consumidor brasileiro é considerado fundamental para definir os próximos passos em relação ao tema.
A avaliação da aceitação da carne de peixe cultivada em laboratório pode, portanto, ajudar a embasar futuros investimentos em inovação no setor de pescados e na área de proteínas alternativas.