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Redução da jornada preocupa cadeia do leite no Brasil

Foto do autor Francieli Galo
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Redução da jornada preocupa cadeia do leite no Brasil
Setor leiteiro teme aumento de custos, falta de mão de obra e risco de desabastecimento com proposta de redução da jornada de trabalho no Brasil.

Documento enviado ao Ministério da Agricultura aponta risco de aumento de custos, falta de mão de obra e impactos sobre mais de 1 milhão de propriedades leiteiras no país

A cadeia produtiva do leite voltou a demonstrar preocupação com as propostas de mudança na legislação trabalhista que preveem a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas. Neste mês de março, a Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados encaminhou um documento ao ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, manifestando apreensão com os possíveis efeitos da alteração da escala 6x1 sobre a atividade leiteira.

Vinculada ao Conselho Nacional de Política Agrícola e ao Ministério da Agricultura e Pecuária, a câmara setorial argumenta que o debate precisa avançar com base técnica, já que a pecuária de leite depende de uma rotina contínua e não comporta interrupções operacionais sem prejuízo à produção.

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Setor calcula impacto bilionário com redução da jornada

Segundo o documento elaborado pela câmara setorial, a redução da carga horária pode gerar uma perda de 658 milhões de horas de trabalho por mês no Brasil. Para compensar esse volume, seria necessária a contratação adicional de 3,65 milhões de trabalhadores, o que representaria um custo extra estimado em R$ 228 bilhões por ano entre salários e encargos.

Na avaliação do setor, esse impacto se torna ainda mais sensível em atividades agropecuárias que operam de forma contínua, como é o caso da produção de leite. Diferentemente de segmentos urbanos com maior flexibilidade operacional, a pecuária leiteira exige presença diária e manejo permanente, o que limita a adaptação a mudanças bruscas na jornada sem aumento expressivo de custo.

Pecuária de leite funciona sem pausa e exige mão de obra contínua

A preocupação da cadeia do leite está diretamente ligada à própria natureza da atividade. Hoje, a produção leiteira está presente em mais de 1 milhão de propriedades rurais no Brasil, em um sistema que exige ordenha diária das vacas, em até três turnos, durante os 365 dias do ano.

Isso significa que a atividade não pode simplesmente reduzir ritmo ou interromper operações sem comprometer a produção e a qualidade da matéria-prima. O leite é um produto altamente perecível, com necessidade de coleta, manejo e processamento contínuos.

No Paraná, esse cenário ganha ainda mais peso. A pecuária leiteira está presente nos 399 municípios paranaenses, o que reforça a relevância econômica e social da atividade para o interior do estado, especialmente em pequenas e médias propriedades familiares.

Setor teme desabastecimento, inflação e êxodo rural

Na avaliação de Ronei Volpi, presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Leite e Derivados, a mudança pode trazer consequências severas para toda a cadeia de lácteos. Segundo ele, a natureza perecível do leite exige trabalho contínuo e sem interrupção, o que torna a reorganização da jornada muito mais complexa do que em outros segmentos.

O setor argumenta que já convive com escassez de mão de obra qualificada, alta carga tributária e pressão competitiva de produtos importados, especialmente de países vizinhos. Diante disso, uma nova elevação de custos poderia agravar ainda mais a situação do produtor e comprometer a permanência de muitas propriedades na atividade.

Entre os riscos apontados estão desabastecimento, pressão inflacionária sobre os lácteos, redução da competitividade e até êxodo rural, caso a atividade perca viabilidade econômica em diversas regiões produtoras.

Câmara setorial pede debate técnico e sem viés político

Além de manifestar preocupação, a câmara setorial também defende que o tema seja tratado com maior profundidade técnica. O documento destaca a necessidade de estudos específicos para medir os efeitos reais da proposta sobre o campo e sobre cadeias produtivas que operam de forma ininterrupta.

A avaliação do setor é de que uma discussão dessa magnitude precisa considerar as particularidades da agropecuária brasileira, especialmente em cadeias como leite, aves, suínos e outras atividades que dependem de rotina diária e não podem ser simplesmente adaptadas aos mesmos parâmetros de setores urbanos.

A entidade também reforça que o debate precisa ocorrer em ambiente técnico, com previsibilidade e participação efetiva dos segmentos produtivos, para evitar distorções e prejuízos estruturais ao campo.

Leite vira símbolo de um debate maior no agro

Mais do que uma preocupação isolada da cadeia láctea, o posicionamento do setor mostra como a proposta de redução da jornada pode ganhar repercussão mais ampla dentro do agronegócio. Atividades com forte dependência de mão de obra contínua tendem a sentir de forma mais intensa qualquer aumento de custo trabalhista ou necessidade de ampliação do quadro de funcionários.

No caso do leite, o impacto pode ser ainda mais expressivo porque a atividade está espalhada por todo o território nacional, tem grande presença em propriedades familiares e desempenha papel relevante na geração de renda no interior.

Por isso, o alerta da cadeia produtiva é claro: qualquer mudança na legislação precisa levar em conta a realidade do campo, a perecibilidade da produção e a dificuldade crescente de encontrar trabalhadores qualificados para manter a atividade em funcionamento diário.

Produtor acompanha debate com preocupação crescente

Para o produtor rural, especialmente o leiteiro, a discussão acende um sinal de alerta importante. Em um cenário já marcado por margens apertadas, pressão de custos e desafios de competitividade, a possibilidade de uma redução da jornada sem mecanismos de adaptação específicos pode significar mais dificuldade para manter a atividade rentável.

No Paraná e em outras regiões fortemente dependentes da pecuária leiteira, o tema tende a ganhar cada vez mais espaço nas próximas semanas. A preocupação do setor é que, sem uma análise técnica aprofundada e sem considerar as particularidades da produção agropecuária, a mudança possa gerar efeitos que ultrapassem a porteira, atingindo também o consumidor com preços mais altos e menor oferta de produtos lácteos.

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