Projeto no Senado substitui lei de 1973 do trabalho rural
Texto aprovado na Comissão de Agricultura do Senado consolida regras sobre contratos, jornada, segurança e fiscalização, substituindo normas em vigor há mais de 50 anos
O Senado deu mais um passo para atualizar a legislação trabalhista no campo com a aprovação, na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA), do projeto que cria um novo marco legal para o trabalho rural e substitui regras em vigor desde 1973.
A proposta, de autoria da senadora Margareth Buzetti (PP-MT), recebeu parecer favorável do senador Zequinha Marinho (Podemos-PA) e consolida em um único texto normas hoje dispersas sobre as relações de trabalho no meio rural. Na prática, o projeto busca reorganizar e modernizar a legislação que rege o emprego no campo, reunindo regras sobre contratos, jornada, saúde e segurança, negociação coletiva, fiscalização e modalidades de contratação, em uma tentativa de adequar a norma à realidade atual do agronegócio brasileiro.
Projeto busca atualizar regras antigas no campo
O texto aprovado revoga a legislação vigente há mais de cinco décadas e cria uma nova estrutura legal com 221 artigos, voltada à reorganização do trabalho rural no país. Segundo a autora da proposta, o objetivo é atualizar regras que já não acompanham a dinâmica do setor. A justificativa central é que o campo de hoje opera em um ambiente muito diferente daquele de 1973, com maior uso de tecnologia, novos modelos produtivos, mecanização crescente e diferentes formas de contratação de mão de obra.
Esse ponto é relevante para o agronegócio porque boa parte das relações de trabalho no campo ainda convive com normas antigas, interpretações dispersas e desafios práticos na aplicação de exigências que nem sempre refletem a realidade operacional das propriedades rurais. Ao concentrar em um único marco legal as normas trabalhistas rurais, o projeto tende a facilitar a compreensão das obrigações por parte de produtores, empresas e trabalhadores, além de reduzir dúvidas sobre a aplicação de regras em situações típicas da atividade agropecuária.
Segurança jurídica e novas formas de contratação entram no centro do debate
A proposta trata de temas centrais para o dia a dia da atividade rural, como contratos de trabalho, jornada, saúde e segurança, negociação coletiva, fiscalização e modalidades como trabalho temporário, intermitente e por safra. Com isso, o texto busca dar mais previsibilidade às relações de trabalho em um setor marcado por sazonalidade, necessidade de flexibilidade operacional e realidades bastante distintas entre culturas, regiões e perfis produtivos.
Para o agro, esse avanço legislativo é importante porque a modernização das regras pode reduzir inseguranças sobre contratação de mão de obra em períodos específicos, além de trazer maior clareza para empregadores rurais que lidam com estruturas operacionais bastante diferentes das urbanas. A leitura no setor é de que um marco legal mais alinhado à realidade do campo pode ajudar a diminuir conflitos de interpretação e melhorar a gestão trabalhista dentro das propriedades e empresas.
Relatório faz ajustes para adequar a lei à realidade operacional das fazendas
O parecer aprovado na CRA também promove ajustes em pontos considerados de difícil aplicação no ambiente rural. Segundo o relator Zequinha Marinho, alguns dispositivos do texto original precisavam de mudanças para refletir melhor a dinâmica do trabalho no campo e evitar exigências pouco compatíveis com a realidade operacional das propriedades.
Entre os pontos revistos estão regras relacionadas ao teletrabalho e a determinadas exigências administrativas que, na avaliação do relator, podem encontrar limitações logísticas em muitas áreas rurais. Outro ponto sensível foi a previsão de indenização ao fim dos contratos de safra, questionada por Zequinha sob o argumento de que a medida não se encaixa na natureza temporária desse tipo de vínculo, bastante comum em atividades agrícolas sazonais.
Esse debate é especialmente importante para o agro porque contratos de safra são amplamente utilizados em culturas que exigem reforço de mão de obra em períodos específicos, e qualquer mudança nessa modalidade pode ter impacto direto sobre o custo de contratação no campo. A tendência é que esse ponto siga no radar do setor à medida que o projeto avançar na tramitação.
Qualificação e tecnologia também entram no novo marco legal
Além das regras trabalhistas, o projeto também prevê a criação da Política Nacional de Qualificação, Tecnologia, Inovação e Sustentabilidade no Trabalho Rural. A proposta inclui ações voltadas à capacitação de trabalhadores e ao incentivo à adoção de tecnologias no setor, aproximando o debate trabalhista de uma agenda mais ampla de modernização do agro.
Esse ponto ganha peso em um cenário de maior mecanização, agricultura de precisão, digitalização e exigência crescente por produtividade e conformidade. Na prática, o texto tenta conectar a legislação trabalhista não apenas à proteção das relações de trabalho, mas também à necessidade de preparar o campo para um ambiente mais tecnológico e profissionalizado, em que a qualificação da mão de obra passa a ser um diferencial competitivo.
Segurança no trabalho e prevenção ganham mais espaço no campo
O projeto ainda incorpora instrumentos voltados à gestão de riscos e à prevenção de acidentes e assédio no ambiente rural, como a previsão de um programa de gerenciamento de riscos no trabalho rural e a criação de comissões internas de prevenção. Esses dispositivos reforçam uma tendência de maior formalização e de exigências mais estruturadas em segurança do trabalho no campo, tema cada vez mais presente em auditorias, certificações, relações comerciais e governança das empresas do agro.
Para o produtor e o empregador rural, isso pode significar a necessidade de adaptação gradual em processos internos, mas também pode ajudar a reduzir passivos e melhorar a organização da gestão trabalhista. Em um setor cada vez mais cobrado por boas práticas e conformidade, a prevenção tende a ganhar ainda mais peso dentro e fora da porteira.
Projeto segue para nova etapa no Senado
Após a aprovação na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária, o projeto segue agora para a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado, onde terá decisão terminativa. Se for aprovado nessa etapa, o texto poderá seguir diretamente para a Câmara dos Deputados, sem necessidade de votação em plenário no Senado.
O avanço da proposta é acompanhado de perto pelo setor porque trata de um tema estrutural para o agronegócio: a atualização das regras que regem o trabalho no campo em um momento em que o agro opera com níveis crescentes de profissionalização, mecanização e complexidade nas relações produtivas. Para produtores, cooperativas e empresas rurais, a possível aprovação de uma nova lei do trabalho rural representa uma sinalização importante de que a pauta trabalhista voltou ao centro do debate legislativo e pode mexer diretamente com custo, gestão, contratação e conformidade dentro da porteira.