USDA eleva soja e trigo após relatórios de área e estoques
Intenção de plantio e estoques trimestrais nos Estados Unidos trouxeram surpresa ao mercado, sustentaram altas em soja e trigo e limitaram perdas no milho
Os dois principais relatórios divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) nesta terça-feira (31) movimentaram o mercado internacional de grãos e provocaram reação imediata nas cotações em Chicago. Segundo análise de Luiz Fernando Pacheco, da TF Consultoria, os dados sobre intenção de plantio da safra 2026/27 e estoques trimestrais nos Estados Unidos sustentaram uma forte alta da soja e do trigo, enquanto o milho encerrou o dia praticamente estável, apoiado pelo movimento dos demais grãos.
No caso da soja, a principal surpresa veio da área de plantio. O mercado vinha trabalhando com uma expectativa de migração de área do milho para a oleaginosa nos Estados Unidos, o que alimentava projeções de expansão mais robusta da soja. No entanto, os números divulgados pelo USDA ficaram abaixo do esperado, frustrando parte dessas estimativas e dando força às cotações.
Além disso, a valorização recente do óleo de soja também contribuiu para o movimento positivo da oleaginosa, reforçando o suporte no mercado. Mesmo com os estoques trimestrais de soja nos Estados Unidos aparecendo cerca de 10% acima do registrado no mesmo período do ano passado, a leitura predominante foi de que a área menor do que o esperado teve peso maior sobre os preços.
Soja reage com área menor e milho evita queda maior
Na avaliação da TF Consultoria, embora os estoques de soja estejam alguns milhões de toneladas acima do ano anterior, esse fator acabou sendo neutralizado pela surpresa na intenção de plantio. Em outras palavras, o mercado enxergou um sinal potencial de oferta mais ajustada à frente, o que prevaleceu sobre o aumento dos estoques no curto prazo.
Para o milho, o cenário foi mais equilibrado. A estimativa de área veio um pouco acima do que parte do mercado projetava, o que em um primeiro momento trouxe pressão. Ainda assim, os números indicam redução de aproximadamente 3,5% em relação à safra passada, mantendo a percepção de que a área pode continuar menor na comparação anual.
Pacheco ressalta, porém, que ainda existe incerteza sobre esse número, especialmente por causa dos custos de implantação do milho nos Estados Unidos. Segundo ele, muitos agentes seguem apostando em uma migração de área para a soja, o que pode levar a ajustes mais adiante, dependendo do avanço efetivo do plantio.
No caso dos estoques trimestrais do milho, os dados vieram abaixo da expectativa do mercado, o que ajudou a limitar uma queda mais forte das cotações. Apesar disso, os volumes ainda permanecem cerca de 10% acima do registrado no ano anterior. Com isso, o milho chegou a operar pressionado ao longo do pregão, mas conseguiu encerrar o dia mais próximo da estabilidade, sustentado tanto pelos próprios números quanto pela alta observada na soja e no trigo.
Trigo tem maior surpresa e reforça preocupação com oferta
Entre os três principais grãos, o trigo foi o mercado que mais chamou atenção na leitura da TF Consultoria. O USDA trouxe uma redução importante na área total destinada ao cereal nos Estados Unidos, com queda de 3,4%, em um cenário marcado por dificuldades climáticas e incertezas sobre o desenvolvimento da safra.
No trigo de inverno, que já está implantado, a redução de área foi mais expressiva e pode variar entre 5% e 10%, dependendo da variedade. A seca em importantes regiões produtoras norte-americanas vem reduzindo a umidade do solo e piorando a classificação de parte das lavouras, o que aumenta o risco de abandono de áreas e reforça a preocupação com o potencial produtivo.
Já no trigo de primavera, que começa a ser plantado agora, a retração de área também foi significativa. Esse dado é especialmente relevante para o mercado brasileiro, já que esse tipo de trigo costuma ser utilizado pelo Brasil para complementar a oferta e melhorar a qualidade do cereal, principalmente em regiões consumidoras e moageiras.
Apesar de os estoques trimestrais de trigo terem vindo um pouco abaixo do esperado pelo mercado, eles ainda permanecem acima do ano passado, com avanço de cerca de 5,1% na comparação anual. Mesmo assim, a leitura predominante foi de aperto na oferta futura, diante da redução de área e das incertezas climáticas, o que impulsionou uma forte alta nas cotações do cereal ao longo do dia.
Segundo Pacheco, o trigo chegou a operar em queda durante boa parte do pregão, mas conseguiu fechar estável no fim da sessão, sustentado pela forte demanda pelo trigo norte-americano e pelo movimento positivo dos demais grãos.
Para o mercado brasileiro, os relatórios reforçam um ponto central: a formação de preços segue bastante sensível à combinação entre área plantada, estoques e clima nos Estados Unidos. No curto prazo, a soja ganha suporte com a menor área projetada, o milho permanece em compasso de espera diante de números mistos, e o trigo volta a acender alerta sobre oferta e qualidade, fator que pode ter reflexos importantes também para a comercialização e para a indústria moageira no Brasil.