Mercado global de café terá superávit em 2026, diz StoneX
Produção global deve chegar a 182,5 milhões de sacas em 2026, puxada pelo Brasil, mas recomposição desigual dos estoques e riscos externos ainda mantêm o mercado em alerta
A oferta global de café deve superar a demanda em 2026, com um superávit estimado em 10 milhões de sacas, segundo projeção da StoneX. A estimativa aponta para uma produção mundial de 182,5 milhões de sacas, frente a um consumo de 172,5 milhões, em um cenário de recomposição dos estoques globais após anos de aperto na oferta. Apesar da melhora nos fundamentos, a consultoria avalia que o mercado ainda não deve operar em um ambiente de plena estabilidade, já que a recuperação ocorre sobre uma base historicamente baixa e segue marcada por desequilíbrios regionais e fatores externos que mantêm a volatilidade.
Com a produção em alta, os estoques globais devem voltar a superar 48 milhões de sacas em 2026, após quatro anos consecutivos de queda até 2024 e uma leve recuperação em 2025. Ainda assim, a StoneX destaca que esse movimento não significa, necessariamente, um mercado totalmente abastecido. A recuperação dos estoques acontece de forma desigual entre regiões produtoras e consumidoras, enquanto fatores como clima, tensões geopolíticas, políticas comerciais e a evolução de regulações internacionais, como o EUDR, continuam no radar dos agentes do setor.
Segundo o especialista de Inteligência de Mercado da StoneX, Leonardo Rossetti, o mercado entra em 2026 em uma condição mais confortável do ponto de vista da oferta, mas ainda distante de um cenário de estabilidade plena. De acordo com ele, o aumento da produção está concentrado em algumas origens, como o Brasil, enquanto regiões consumidoras importantes ainda operam com níveis historicamente baixos de estoques.
Brasil lidera avanço da oferta global
O principal motor do crescimento da produção global em 2026 será o Brasil. A StoneX projeta uma safra recorde de 75,3 milhões de sacas no ciclo 2026/27, alta de 20,8% na comparação anual. O resultado reflete tanto a recuperação após os danos climáticos da temporada anterior quanto o avanço estrutural da produção, especialmente do café robusta.
Na comparação global, a produção deve crescer 9,6% em relação a 2025, quando o volume revisado foi estimado em 166,5 milhões de sacas. Além do Brasil, outras origens também contribuem para o aumento da oferta, ainda que em ritmos diferentes. Na Ásia, o Vietnã deve ampliar sua produção em quase 10%, favorecido pela recuperação das condições climáticas. Na África, países como Uganda e Costa do Marfim devem elevar a produção do continente em 3,6% na comparação anual.
Por outro lado, a expansão não será uniforme em todas as regiões produtoras. Na América Central, a produção deve registrar leve recuo, inferior a 1% no total. Já a Colômbia deve colher cerca de 12,6 milhões de sacas, abaixo das 13,5 milhões registradas no ciclo anterior. Esse quadro reforça a avaliação de que, embora a oferta global aumente, a distribuição desse crescimento seguirá heterogênea entre as principais origens do mercado.
Estoques sobem, mas mercado segue sensível
No campo dos estoques, a expectativa é de recuperação mais consistente em 2026. O volume global deve avançar de cerca de 38 milhões para mais de 48 milhões de sacas, com o Brasil ocupando papel central nesse movimento. No país, os estoques podem crescer aproximadamente 5 milhões de sacas na comparação anual, consolidando o protagonismo brasileiro na recomposição da oferta mundial.
Mesmo assim, a StoneX destaca que a recuperação não ocorre de forma homogênea. Na Europa, que historicamente atua como importante amortecedor do mercado, os estoques voltaram a se aproximar do limite inferior da faixa histórica em 2025, após uma queda superior a 2 milhões de sacas entre 2024 e 2025. Para 2026, a expectativa é de recuperação gradual. Nos Estados Unidos, os estoques de café verde recuaram de mais de 6 milhões de sacas em 2022 para menos de 1 milhão em 2025, com previsão de leve melhora neste ano. Já o Japão apresenta uma trajetória de queda mais moderada, mas persistente nos últimos anos.
Rossetti avalia que a recomposição dos estoques é relevante, mas ainda insuficiente para eliminar a sensibilidade do mercado. Segundo ele, a recuperação ocorre após uma longa sequência de quedas e com distribuição irregular entre regiões produtoras e consumidoras, o que mantém o setor vulnerável a movimentos abruptos de preços.
Do lado da demanda, o consumo global de café deve voltar a crescer em 2026, após a retração observada em 2025. A projeção da StoneX indica alta de 2,5%, praticamente no mesmo ritmo da queda registrada no ano anterior. Esse avanço deve ser sustentado pela desaceleração da inflação e pela melhora gradual das condições econômicas, especialmente em mercados como Estados Unidos, Brasil e Japão.
Ainda assim, os preços seguem elevados e continuam limitando uma recuperação mais forte do consumo. No Brasil, a inflação do café superou 80% em meados de 2025 e encerrou o ano ainda cerca de 35% acima do período anterior. Nos Estados Unidos, a inflação permaneceu acima de 30% ao longo de 2025, com sinais mais claros de alívio apenas no início de 2026. Na zona do euro, os preços terminaram 2025 com alta em torno de 18%, ainda em desaceleração, mas mantendo pressão sobre o consumidor.
Nesse contexto, a StoneX avalia que 2026 tende a se consolidar como um ano de transição para o mercado global de café. Apesar da melhora nos fundamentos, a consultoria ressalta que o setor ainda permanece sujeito a oscilações. Para Rossetti, embora o superávit reduza o risco de eventos extremos, pequenos choques de oferta ou demanda ainda podem gerar impactos relevantes nos preços, exigindo acompanhamento constante dos fundamentos por parte de produtores, exportadores e agentes do mercado.