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Mudança em remessas internacionais preocupa cadeia do algodão

Foto do autor Jair Reinaldo
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Mudança em remessas internacionais preocupa cadeia do algodão
Abrapa e ANEA alertam que mudanças na tributação de remessas internacionais podem aumentar a concorrência de têxteis importados e pressionar a cadeia do algodão no Brasil.

Entidades do setor avaliam que eventual redução da taxação sobre remessas internacionais pode ampliar importações têxteis sintéticas, pressionar a indústria nacional e afetar o valor do algodão brasileiro

A possibilidade de reduzir ou até extinguir a tributação sobre remessas internacionais de até US$ 50 acendeu um alerta na cadeia do algodão no Brasil. Em posicionamento conjunto, a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) e a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (ANEA) afirmam que a medida pode acelerar a entrada de produtos têxteis importados, sobretudo sintéticos, e pressionar a competitividade da indústria nacional e do algodão brasileiro.

O receio das entidades é que a mudança abra ainda mais espaço para a importação de itens de baixo valor agregado, em um mercado que já vem registrando forte avanço de produtos estrangeiros. Segundo as associações, esse movimento pode aprofundar o desequilíbrio entre fibras naturais e sintéticas no consumo têxtil do país, reduzindo a participação do algodão mesmo com o aumento da produção nacional.

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Na avaliação do setor, a discussão vai além da tributação sobre compras internacionais. O que está em jogo, segundo Abrapa e ANEA, é o impacto sobre uma cadeia que envolve produção no campo, beneficiamento, indústria, emprego e sustentabilidade.

Importações avançam e fibras sintéticas ganham espaço

Os números reforçam a preocupação. As importações têxteis no Brasil saltaram de cerca de 1,1 milhão de toneladas em 2015 para mais de 2 milhões de toneladas em 2024, considerando fibras, fios, tecidos e confecções.

Desse total, aproximadamente 94% correspondem a fibras sintéticas e artificiais, enquanto o algodão e outras fibras naturais somam menos de 6%.

Na prática, isso significa que o mercado brasileiro vem absorvendo cada vez mais produtos baseados em derivados fósseis, enquanto as fibras naturais perdem espaço no consumo interno. De acordo com as entidades, a participação das fibras naturais nos produtos têxteis acabados consumidos no país caiu de 42% para 27% no período, mesmo com o crescimento da produção brasileira de algodão.

Ao mesmo tempo, o consumo de fibras sintéticas avançou quase 70%, impulsionado principalmente pelas importações.

Para o produtor rural, o efeito é direto: quanto maior a substituição do algodão por fibras sintéticas no mercado interno, maior a pressão sobre o valor agregado da produção brasileira e sobre a força da cadeia têxtil nacional como destino da pluma.

Pressão sobre a cadeia do algodão

Abrapa e ANEA avaliam que uma eventual flexibilização da tributação sobre remessas internacionais pode agravar esse quadro, ampliando a concorrência com a indústria nacional em condições consideradas desiguais.

A preocupação é que produtos importados cheguem ao mercado com preços ainda mais competitivos, especialmente em segmentos de vestuário e confecção, reduzindo o espaço para a produção doméstica e, por consequência, afetando a demanda por matéria-prima nacional.

No caso do algodão, isso pode enfraquecer uma cadeia que depende não apenas das exportações, mas também da solidez do mercado interno e da indústria têxtil brasileira para sustentar valor, consumo e previsibilidade.

Embora o Brasil seja um dos principais produtores e exportadores mundiais de algodão, o avanço das fibras sintéticas importadas pode reduzir a participação da fibra natural no consumo nacional e limitar o potencial de agregação de valor dentro do próprio país.

Impactos ambientais entram no debate

As entidades também reforçam que a discussão não é apenas econômica. Segundo o posicionamento, o aumento do fluxo de têxteis sintéticos tende a ampliar a geração de resíduos persistentes e a presença de microplásticos no ambiente.

A estimativa apresentada é de que cerca de 35% dos microplásticos presentes nos oceanos tenham origem em têxteis sintéticos.

Além disso, estudos recentes mencionados pelas associações apontam que a presença de microplásticos no organismo humano pode estar associada a processos inflamatórios, doenças cardiovasculares e efeitos sobre os sistemas imunológico e endócrino.

Ao colocar esse ponto no centro do debate, as entidades tentam reforçar a diferença entre fibras de base natural, como o algodão, e materiais derivados de combustíveis fósseis, que hoje dominam a maior parte das importações do setor.

Emprego e indústria também estão em jogo

No campo econômico e social, o alerta das entidades é de que a revisão tributária pode atingir uma cadeia relevante para o emprego e para a indústria nacional.

Segundo os dados divulgados, o complexo algodão-têxtil responde por cerca de 1,3 milhão de empregos formais e 8 milhões de empregos indiretos no Brasil. Aproximadamente 60% dessas vagas são ocupadas por mulheres.

A avaliação é que uma maior pressão competitiva sobre a indústria têxtil pode comprometer postos de trabalho, reduzir atividade industrial e enfraquecer a capacidade do país de manter uma cadeia mais integrada entre produção agrícola e transformação industrial.

Para o agro, isso é especialmente importante porque o algodão não depende apenas de volume colhido ou desempenho exportador. O fortalecimento da indústria nacional também influencia o valor capturado ao longo da cadeia e a capacidade de o Brasil transformar produção em renda, emprego e competitividade.

Debate tem reflexos para o produtor

Ao se somarem às manifestações já feitas por entidades como Abit e ABVTEX, Abrapa e ANEA defendem que qualquer mudança na tributação de remessas internacionais seja discutida com visão de longo prazo.

Na leitura do setor, o tema exige equilíbrio entre acesso a produtos importados, proteção da indústria nacional, sustentabilidade e preservação de uma cadeia produtiva que começa no campo.

Para o produtor de algodão, a mensagem é clara: se a concorrência de têxteis importados sintéticos ganhar ainda mais força, o Brasil pode ver crescer a pressão sobre a demanda interna pela fibra natural, reduzindo espaço para o algodão em um mercado estratégico.

Mesmo para estados onde o algodão não é a principal cultura, como o Paraná, o tema interessa ao agronegócio por envolver competitividade industrial, agregação de valor à produção agropecuária e defesa de cadeias produtivas ligadas à transformação da matéria-prima nacional.

No posicionamento conjunto, as entidades sustentam que um ambiente competitivo equilibrado é condição essencial para fortalecer a indústria, preservar empregos e avançar para uma cadeia têxtil mais sustentável — e, nesse cenário, manter espaço para o algodão brasileiro segue como ponto central da discussão.

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