Setor produtivo alerta bancada sobre fim da escala 6x1 em MT
Entidades apresentaram estudos a deputados e senadores sobre aumento de custos, risco de informalidade e impactos no emprego com mudança na jornada de trabalho
Representantes do setor produtivo de Mato Grosso se reuniram nesta segunda-feira (16) com deputados federais e senadores do estado para apresentar os impactos econômicos da possível mudança na jornada de trabalho com o fim da escala 6x1, proposta que está em debate no Congresso Nacional por meio da PEC nº 221/2019 e da PEC nº 8/2025.
O encontro foi promovido pela Aliança do Setor Produtivo de Mato Grosso, formada pela Famato, Fecomércio-MT e Fiemt, durante café da manhã realizado na sede da Fecomércio-MT, em Cuiabá.
Na reunião, as entidades defenderam cautela na discussão e apresentaram estudos técnicos que apontam efeitos sobre emprego formal, custo de produção, preço final ao consumidor e competitividade das empresas, com reflexos também sobre o agronegócio mato-grossense.
Estudos apontam aumento de custos e pressão sobre preços
Durante a apresentação, técnicos das entidades mostraram que a redução da jornada de trabalho pode gerar impacto direto sobre a atividade econômica, seja pela necessidade de contratar mais trabalhadores, seja pelo aumento do pagamento de horas extras para manter o mesmo nível de operação.
Os relatórios apresentados indicam que a medida pode pressionar os custos em diferentes setores e provocar repasses ao consumidor.
No comércio, por exemplo, o estudo aponta que o aumento de custos pode elevar o preço final dos produtos em até 24%.
No agronegócio, a preocupação está no avanço do Custo Operacional Efetivo (COE) das principais culturas analisadas, o que também pode refletir na formação de preços e na rentabilidade do produtor.
Agro pode exigir mais de 15 mil novas contratações
Um dos principais alertas veio dos dados apresentados pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
Segundo o levantamento, a redução da jornada de trabalho teria impacto direto sobre emprego, custo de produção e margem da atividade agropecuária em Mato Grosso.
De acordo com o estudo, a migração para uma jornada de 40 horas semanais exigiria mais de 15 mil novas contratações na agropecuária mato-grossense.
Em um cenário de jornada de 36 horas semanais, essa demanda superaria 34 mil trabalhadores.
Ainda segundo o Imea, o efeito da medida vai além da folha de pagamento e alcança o custo operacional das lavouras, eleva o ponto de equilíbrio da produção e pressiona a margem do produtor rural.
Setor cita risco de aumento da informalidade
Outro ponto destacado pelas entidades foi o risco de avanço da informalidade no mercado de trabalho.
Segundo a gerente do Observatório de Mato Grosso, Vanessa Gasch, os estudos apresentados ainda não consideram totalmente o impacto do mercado informal, que já tem forte presença no estado.
Hoje, cerca de 31% dos trabalhadores de Mato Grosso estão na informalidade, o que, na avaliação do setor, amplia a preocupação em torno de mudanças estruturais sem análise mais aprofundada dos efeitos regionais.
A leitura apresentada durante a reunião é que, além dos impactos sobre empregos formais e custos empresariais, a mudança pode gerar distorções adicionais em um mercado já pressionado por elevada informalidade.
Agro defende flexibilidade por causa do clima e da logística
Os presidentes das três federações reforçaram que a preocupação não está apenas no custo, mas também na dificuldade de aplicar uma mudança uniforme em setores que operam com dinâmicas muito diferentes.
No caso do agronegócio, a avaliação é de que atividades como plantio, colheita e transporte dependem de condições climáticas, janelas operacionais e continuidade logística, o que exige maior flexibilidade na organização das jornadas.
O presidente da Famato, Vilmondes Tomain, destacou que, no campo, muitas operações não podem ser interrompidas sem prejuízo técnico e econômico.
A mesma linha foi defendida pelos representantes do comércio e da indústria, que ressaltaram que diferentes atividades têm necessidades próprias de funcionamento e demandam soluções compatíveis com a realidade de cada setor.
Entidades defendem debate técnico e planejamento
Apesar das críticas aos possíveis efeitos da medida, os representantes da Aliança do Setor Produtivo afirmaram que não são contrários à discussão sobre melhorias nas relações de trabalho.
A posição das entidades é que qualquer mudança na legislação precisa ser construída com planejamento, análise técnica e avaliação de impacto sobre produtividade, competitividade e geração de empregos.
Para o setor, alterações estruturais na jornada de trabalho exigem atenção especial em estados como Mato Grosso, onde a economia é fortemente dependente do agro, da logística e de cadeias produtivas com operação contínua.
Parlamentares pedem aprofundamento da discussão
Entre os parlamentares presentes no encontro, também houve sinalização favorável ao aprofundamento do debate antes de qualquer avanço nas propostas.
A senadora Margareth Buzetti defendeu que mudanças estruturais na jornada de trabalho sejam analisadas com cautela, considerando os reflexos sobre a economia e até sobre as contas públicas.